quarta-feira, 23 de junho de 2010

Meu submundo escolar








Eu não passava dos sete anos de idade. Primeira-série, salvo engano. Época complicada... Estudava em um colégio de freira, um dos maiores da cidade e, na visão de um menino, uma verdadeira selva.

Seguíamos à risca a teoria de Darwin, onde apenas os mais aptos sobreviviam. Os hooligans da quinta e sexta-série dominavam aquele espaço. Lembro o quão complicado era comprar uma coca-cola na cantina. Uma verdadeira odisseia. Assim, para sobrevivermos nessa megalópole, precisávamos andar em grupos. Era o que meus amigos e eu fazíamos.

Jogar futebol na quadra? Utopia. O gol era um portão no canto do ginásio, e com a máxima atenção pra que nenhum dos gigantes roubassem a bola. Mas roubavam, e não havia o que fazer. Contar para a tia era suicídio. No dia seguinte o delinquente estaria lá, no mesmo lugar, impune, pronto pra acertar as contas conosco. Nessa hora ninguém via e sabia de nada...

Jogar bafo era se sentir em um daqueles becos do inferno. Um vício, onde gastávamos toda a fortuna que nossos pais nos davam pra lanchar, em figurinhas do Campeonato Brasileiro de 1993 e colocávamos na roda. Malandragens e catimbas ocorriam aos montes. Eu suava como quem aposta a casa em uma daquelas roletas de Las Vegas. Era emocionante.

Era época de ostentação. Mini game 999 in 1 o fazia subir de status, andar com a galera mais velha, o que resultava em sucesso com as meninas. Aquele papo de Darwinismo foi corroborado com a febre dos iô-iôs. Gostaria de ser alguém no meio da multidão? Aquela criança precoce, que andava com o pessoal descolado da quinta-série? Bastava ostentar um io-iô que acendia luzes. Você passaria a ter aliados, mas, claro, isso tinha um preço. Quem presta favor uma hora retorna pra cobrar, e de maneira exacerbada. Muitas vezes levavam o nosso lanche inteiro como forma de pagamento.

Havia também o pessoal que tratava da parte ilícita. Era tudo esquematizado. Um vigiava, o outro pegava a mercadoria e saíamos em grupo para um local mais afastado. A intenção era não chamarmos atenção. Pronto. Local seguro, ninguém por perto. O fornecedor abria a mochila e mostrava o produto. A Playboy do mês. Ele avisava que, por um precinho camarada, conseguiria mais. Inebriados, disfarçávamos e saíamos de mansinho quando o inspetor se aproximava. Ninguém desconfiava. O esquema era forte.

Todo o lugar tinha os costas-quentes. Esses tinham alguém influente, como um irmão ou primo mais velho, da alta cúpula. Logo, tornavam-se intocáveis. Já eu, que não possuía padrinho, precisei me adaptar. E sobrevivi, pelo menos é o que parece.

Dizem que a escola prepara o aluno para o mundo lá fora, mas poucos sabem que de maneira tão real... 






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