Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Brincando de ser sincero.







É complicado afirmar que o encanto simplesmente acabou, mas não havia como camuflar. A verdade é apenas uma: sentimentos não podem ser manipulados.

Se fosse pra acabar assim, de repente, não haveria motivos pra todas aquelas idealizações. Ora, pra quê tantas noites mal dormidas, então? Até em meus sonhos ele vinha me iludir. E eu, feito uma tola, desenhando o momento que falaria tudo aquilo que ele jamais pensara ouvir de uma mulher. Eu tinha o diferencial: estava desarmada. Não estava em guerra, tratei de hastear a bandeira branca desde o início e provar a mim mesma que poderia estar trajada apenas da mais cristalina verdade. Mas não foi suficiente. Não pra mim.

Pode parecer que não, mas eu sempre soube o que queria. Brincar de ser sincero tem seus momentos, e ensaiar e planejar a mais nobre prova de amor que possa existir é paradoxar com o medo e a insegurança de uma má interpretação. A intenção não era mais transparecê-lo em folha de papel, poesia, retratos ou olhos fechados. Viver de teoria é amedrontar-se com o que o amor nos reservou. Tratei de cobrir minha timidez e seguir em frente.

Mas vamos combinar que o amor não é flor que se cheire. Você encontra a pessoa certa, que te completa físicamente, por ideias, tremeliques, suor e respiração ofegante. Um raio caiu na sua cabeça. Tem gente que está na terceira encarnação e ainda não deu essa sorte. O problema surgiu quando coloquei os pés no chão e olhei ao meu redor: Havia ensaiado uma peça que não entrará em cartaz. O amor foi abortado às vésperas de parir.

E agora, como justificar aquelas juras de amor? Estava combinado, disponibilizaria amor integral e incondicional, mas essa história de querer amar demais pode ser uma armadilha do acaso. Mas então, qual será a saída? Amar sempre com um pé atrás? Amar de olhos abertos? Amar é se doar, e quem doa não pode enxergar restrições.

Tentei ouvir de você onde morou nosso erro. Não pense que, do alto dos meus medos, te culparia por isso. A verdade é que tentamos fantasiar a realidade, e o efeito reverso pode ser fatal. Se houve culpado, que seja mútua culpa. Já estamos bem crescidinhos pra sabermos que o amor não se tem quando se quer.

Por maioria de votos, deixei o amor pra mais tarde.







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quarta-feira, 23 de junho de 2010

Meu submundo escolar








Eu não passava dos sete anos de idade. Primeira-série, salvo engano. Época complicada... Estudava em um colégio de freira, um dos maiores da cidade e, na visão de um menino, uma verdadeira selva.

Seguíamos à risca a teoria de Darwin, onde apenas os mais aptos sobreviviam. Os hooligans da quinta e sexta-série dominavam aquele espaço. Lembro o quão complicado era comprar uma coca-cola na cantina. Uma verdadeira odisseia. Assim, para sobrevivermos nessa megalópole, precisávamos andar em grupos. Era o que meus amigos e eu fazíamos.

Jogar futebol na quadra? Utopia. O gol era um portão no canto do ginásio, e com a máxima atenção pra que nenhum dos gigantes roubassem a bola. Mas roubavam, e não havia o que fazer. Contar para a tia era suicídio. No dia seguinte o delinquente estaria lá, no mesmo lugar, impune, pronto pra acertar as contas conosco. Nessa hora ninguém via e sabia de nada...

Jogar bafo era se sentir em um daqueles becos do inferno. Um vício, onde gastávamos toda a fortuna que nossos pais nos davam pra lanchar, em figurinhas do Campeonato Brasileiro de 1993 e colocávamos na roda. Malandragens e catimbas ocorriam aos montes. Eu suava como quem aposta a casa em uma daquelas roletas de Las Vegas. Era emocionante.

Era época de ostentação. Mini game 999 in 1 o fazia subir de status, andar com a galera mais velha, o que resultava em sucesso com as meninas. Aquele papo de Darwinismo foi corroborado com a febre dos iô-iôs. Gostaria de ser alguém no meio da multidão? Aquela criança precoce, que andava com o pessoal descolado da quinta-série? Bastava ostentar um io-iô que acendia luzes. Você passaria a ter aliados, mas, claro, isso tinha um preço. Quem presta favor uma hora retorna pra cobrar, e de maneira exacerbada. Muitas vezes levavam o nosso lanche inteiro como forma de pagamento.

Havia também o pessoal que tratava da parte ilícita. Era tudo esquematizado. Um vigiava, o outro pegava a mercadoria e saíamos em grupo para um local mais afastado. A intenção era não chamarmos atenção. Pronto. Local seguro, ninguém por perto. O fornecedor abria a mochila e mostrava o produto. A Playboy do mês. Ele avisava que, por um precinho camarada, conseguiria mais. Inebriados, disfarçávamos e saíamos de mansinho quando o inspetor se aproximava. Ninguém desconfiava. O esquema era forte.

Todo o lugar tinha os costas-quentes. Esses tinham alguém influente, como um irmão ou primo mais velho, da alta cúpula. Logo, tornavam-se intocáveis. Já eu, que não possuía padrinho, precisei me adaptar. E sobrevivi, pelo menos é o que parece.

Dizem que a escola prepara o aluno para o mundo lá fora, mas poucos sabem que de maneira tão real... 






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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Do amor que ainda não aconteceu.






Confesso que me sinto culpado por brigarmos à distância. Não aquela distância física, por telefone ou mensagem, mas sim uma briga mais implícita. Brigamos com os olhos, com sorrisos, até com gentilezas. É a forma mais cruel de discutir, pois somos manipulados por nós mesmos. Briga boa é aquela que chamamos o outro de canalha, xingamos a mãe, atiramos pela janela a coleção de CD's. Aquela coisa efusiva, que sempre termina em carnaval, com o testemunho da dilatação do amor.

Precisávamos passar por certos estágios pra chegarmos nesse nível áureo. Pra quê brigarmos se ainda não demos nem o primeiro passo? Pra quê descontentamento onde a razão ainda não fincou bandeira?  À vista de terceiros somos quase a idealização dos sonhos. Mas das nossas brigas, acredite, só a gente é quem sabe

Não precisamos de muito tempo pra confundirmos nossos sentimentos. Na verdade, são como uma montanha-russa, daquelas com uns dez loopings. Uma hora estamos de bem, outra hora nem nos olhamos. Poderíamos dizer que é algo normal, rotineiro e até necessário pra qualquer casal. Claro, se também fôssemos um casal. Mas, afinal, o que falta?

Dar tempo ao tempo parecia a solução. Tinha certeza de que não passaria de uma encenaçãozinha de nós dois, é até gostoso, faz parte do jogo da conquista, mas não foi o que aconteceu. Resolvemos prosseguir, é aí que mora o nosso pecado. Não ultrapassamos aquele jogo-de-charme. Era como se  o castanho dos seus olhos me contentasse apenas à distância. Seu sorriso, por mais que se entregasse, parecia não alcançar minha boca. E o que nos restou? Conviver com esse joguinho de olhares, dia após dia, até o momento em que a vida der o ultimato: não restará mais tempo.

Isso é coisa que não quero nem pensar. Não desejo que esse sentimento deixe de ser verdadeiro. Pelo menos não até eu dizer que fiz tudo o que podia. Tudo e mais um pouco, na verdade. Vou deixar o adeus pra um outro momento, nem que seja por pirraça. Eu sei, essa briga apenas camufla o que realmente desejamos, não há como ser o contrário. Olhares, sorrisos e gentilezas são sinônimos de amor, não de angústia. Normal, apenas confundimos as posições. Errar é humano. Vamos começar pelo início mesmo, sem alimentar desalinhos, sem pular etapas. Dá tempo. Sempre dá. Topa?






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