sábado, 22 de maio de 2010

O cronista e o poeta





O cronista é um observador nato. O cronista não escreve com as mãos, e sim com os olhos. É uma espécie de Thundercat, tem a visão além do alcance. O cronista, quando olha um pássaro pousado em um galho, não vê apenas um pássaro pousado em um galho. É quase um sensitivo. O cronista é o primeiro a chegar e o último a sair. É um curioso. Diria até que é um egoísta. O cronista precisa ser ouvido, quer falar pro mundo inteiro. É tagarela, não tem restrições. Cronista não é apenas jornalista, mas forma opiniões. Cada cronica é uma fração do seu cotidiano, dos seus sentimentos, do seu eu. Cronista é abusado. O espelho do cronista é a crônica. O porta-retrato do cronista é a crônica. O cronista é a sua própria cronica. É um caçador. Cronista não dá satisfação e usa óculos por precaução. O cronista não gosta e não quer guardar segredos. Conta tudo, mesmo que implicitamente. O cronista não se dá ao luxo de dormir. Nunca.

O poeta é quase isso, mas há um diferencial: O poeta precisa sofrer. Sofrer de amor. Poeta precisa de rejeição. Ao contrário do cronista, o poeta é altruísta. O poeta não fala pro mundo, o mundo é que fala pro poeta. O poeta enxerga melhor quando está de olhos fechados. É, sim, sensitivo. É artista. O poeta muitas vezes interpreta. Ri e chora pelos outros. Poeta sente-se amado pela dor de sua poesia. Poeta é sonhador, quer sempre amar mais e mais. Não se contenta em amar apenas seu entorno. Pro poeta, sofrer é sinônimo de amar. O poeta sofre por mim e por você. Poeta é caça. Sente-se destroçado pelo amor. Será que o poeta deveria amar menos? Poeta cede passagem. Seu maior defeito e maior qualidade é amar demais. Poeta busca amor integral justamente por disponibilizar amor integral, mesmo que também implicitamente. Não esquece que chorar é redenção. O poeta não se dá ao luxo de morrer. Nunca.






Comentários

← Postagem mais recente Postagem mais antiga → Página inicial