Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

sábado, 22 de maio de 2010

O cronista e o poeta





O cronista é um observador nato. O cronista não escreve com as mãos, e sim com os olhos. É uma espécie de Thundercat, tem a visão além do alcance. O cronista, quando olha um pássaro pousado em um galho, não vê apenas um pássaro pousado em um galho. É quase um sensitivo. O cronista é o primeiro a chegar e o último a sair. É um curioso. Diria até que é um egoísta. O cronista precisa ser ouvido, quer falar pro mundo inteiro. É tagarela, não tem restrições. Cronista não é apenas jornalista, mas forma opiniões. Cada cronica é uma fração do seu cotidiano, dos seus sentimentos, do seu eu. Cronista é abusado. O espelho do cronista é a crônica. O porta-retrato do cronista é a crônica. O cronista é a sua própria cronica. É um caçador. Cronista não dá satisfação e usa óculos por precaução. O cronista não gosta e não quer guardar segredos. Conta tudo, mesmo que implicitamente. O cronista não se dá ao luxo de dormir. Nunca.

O poeta é quase isso, mas há um diferencial: O poeta precisa sofrer. Sofrer de amor. Poeta precisa de rejeição. Ao contrário do cronista, o poeta é altruísta. O poeta não fala pro mundo, o mundo é que fala pro poeta. O poeta enxerga melhor quando está de olhos fechados. É, sim, sensitivo. É artista. O poeta muitas vezes interpreta. Ri e chora pelos outros. Poeta sente-se amado pela dor de sua poesia. Poeta é sonhador, quer sempre amar mais e mais. Não se contenta em amar apenas seu entorno. Pro poeta, sofrer é sinônimo de amar. O poeta sofre por mim e por você. Poeta é caça. Sente-se destroçado pelo amor. Será que o poeta deveria amar menos? Poeta cede passagem. Seu maior defeito e maior qualidade é amar demais. Poeta busca amor integral justamente por disponibilizar amor integral, mesmo que também implicitamente. Não esquece que chorar é redenção. O poeta não se dá ao luxo de morrer. Nunca.






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domingo, 16 de maio de 2010

Diz pro amor.





Corre e diz pro amor que você tá aqui e quer ser notada.

Diz pro amor que aquelas esquivadas eram oriundas do medo. 

Vai, seja sincera, diz pro amor que aquela ferida ainda não cicatrizou, mas também não é mais motivo pra deixar oportunidades passarem. 

Diz que você aprendeu com os erros, mas não diz que não farão mais parte de você, pois ninguém melhor que ele pra saber que não há "amor perfeito". 

Diz pro amor que você, orgulhosa, fechou a porta, a janela, desligou o celular, apagou a luz e se cobriu, que você ali criou o seu mundo, que não necessitaria dele pra nada.
                    
Vai, levanta e diz tudo isso pro amor. 

Diz que você não quer mais colocar o trabalho em primeiro plano, que você abriu a porta e que o seu mundo se expandiu, que você, enfim, enxergou.

Vai lá, vai. Diz pro amor. 

Diz, porque amor é sinônimo de perdão. 

Diz, porque o amor gosta de ser paparicado, e devolve na mesma moeda. 

Diz baixinho, diz no ouvido. 

Diz com rodeios. 

Mas não diz que você voltou, e sim que nunca foi. 

Vai lá, vai. Vai lá e desmonta o amor...






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domingo, 9 de maio de 2010

O amor acabou





 Ela não sabia exatamente o motivo, mas era algo que a incomodava. Estavam de bem, inclusive há tempos não discutiam. Aparentemente nada de errado, mas algo não a deixava levantar daquela poltrona no meio do filme, jogar fora o saco de pipoca e ir pra casa dele. Não era preguiça, era mais. Ainda não havia percebido, mas já era de mútuo conhecimento: o amor havia acabado.

Decerto que chegar a essa conclusão não era tarefa das mais fáceis. Ela sabia que seu jeito plácido era o motivo de terem contornado tantos problemas. Aquele excesso de ciúmes já era coisa do passado. As insistentes ligações e mensagens de texto a fim de cuidar de seus passos já não existiam mais. Aliás, por vezes ele confundia seu número com o de algum amigo. Serenidade passou a ser a palavra-chave do atual momento, e isso é fatal: o amor sai à paisana.

Já não ficavam mais de braços entrelaçados na poltrona do cinema. Ele não a buscava mais na porta do curso com tanta frequência. "São só quatro quadras!". Aquele seu humor já não tinha a mesma graça. Seu sorriso parecia cada vez mais distante. Porém, por subjetividade, diziam estar na fase madura, onde a euforia cede vez à tolerância e tudo torna-se capricho. "São os estágios do amor, é assim que funciona." Quem disse?

O amor não deu nem tchau. Virou de costas e se foi, deixando-os falando sozinhos, encenando, de maneira amadora, peça com final absolutamente decorado. Tornaram-se atores em suas próprias vidas, do nada e pra nada. Na verdade aguardam o retorno do amor, como se este , arrependido e de mala e cuia, retomasse sua posição.

Mas ela disse que remaria contra a maré. Fato é que travaria uma luta estilo Davi e Golias, e eu admirei sua tenacidade. "O amor acaba justamente pra, reencarnado, recomeçar. Mas acaba!", tentava eu sem êxito explicar. Mas travara uma batalha com fim anunciado: metade da pipoca em seu colo, metade no chão. Adormeceu antes mesmo do término daquele filme. 






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terça-feira, 4 de maio de 2010

Se você soubesse




Ah, se soubesse o quão charmosa estava com aquele All Star branco meio encardido, aquele short jeans com uns desfiadinhos que se encaixa perfeitamente às suas curvas; o top verde que você diz usar somente pra bater, deixando o piercing no umbigo à mostra. A caneta amarela prendendo seu rabo-de-cavalo, combinando com os seus óculos de grau que insistes em usar somente quando lê, e eu te enchendo o saco pra usá-lo diariamente, você diz que estou querendo tirar sarro de ti.

Se soubesse que morro de felicidade quando estamos presos naquele trânsito infernal e somos obrigados a nos aturar, você com aquele vestidinho comprado no brechó, com uma sandalinha rasteira e com aquelas pulseirinhas de couro. Sabe o nome disso? Encanto, simplesmente, sem derivados ou compostos.

É nessas horas que a verdadeira beleza se apresenta. Na hora que você está ali, enxugando o suor do rosto, debaixo do escaldante sol; quando compra uma latinha de guaraná e diz: "Putaqueopariu, que calor é esse?!", e ainda finaliza derrubando a bebida no jeans; olha pra mim e abre um sorriso meio que envergonhado e irritado, como quem diz: "Agora já era, né?"

Sim, agora já era, não tem mais volta. Quem mandou se revelar bonita da forma mais encantadora?








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