quarta-feira, 21 de abril de 2010

Amor de escola




Acho interessante observar as faces do amor na infância. Toda a ingenuidade, a dificuldade de entender esse sentimento despertado pela primeira vez, a implicância transcendendo para a paixão, surgindo de maneira exacerbada, acanhada e inesperada. Vasculhando o meu baú de fotografias, lembrei de um fato que se encaixa perfeitamente nesta hipótese.

Segunda série, ensino fundamental, oito anos de idade. Recordo que todos tinham alguma paixãozinha no colégio. Na época era definido como 'gostar'. 'Você gosta de quem?'. Todos tinham a sua preferida. E como é bonita essa maneira infantil de definir o amor... Existe algo mais simples e mais belo do que ouvir um 'eu gosto de você.'? Com certeza não, porque é simplesmente gostar mesmo. É coisa de criança.

Toda sala tinha a sua princesa. Ela, que era sempre a primeira a ser procurada com o olhar quando o garoto fazia um gol na aula de educação física. 'Será que ela viu?'. Ela, a protagonista nas pecinhas de teatro de final de ano, que os meninos rezavam pra todos os santos pra ser o seu par na festa junina ou a sua amiga oculta. É, ela, que monopolizava corações. E na minha sala não era diferente.

Por haver alguns colegas com problemas de visão, os lugares na sala de aula eram marcados pela professora. Cada um tinha o seu lugar fixo, que alternava mensalmente. Certa vez - que sorte! - fui contemplado a sentar bem ao lado dela, durante um mês inteirinho. Não podia nem acreditar.

Era o mês de maio, mês da mães, recordo que naquela semana faríamos uns desenhos em homenagem a elas. Eu tinha um daqueles estojos grandes, de zíper, com hidrocor, lápis de cor, giz de cera... um verdadeiro arsenal de cores. Era a minha chance oferecer o estojo e, pela primeira vez, conversar com ela.

Assim que a professora anunciou a tarefa, mostrei meu estojo a ela e perguntei se precisava de alguma coisa. Mas a ideia não deu muito certo. Ela havia pedido meus lápis de cor, mas quase todos estavam sem ponta. Desapontada, devolveu-me e virou pro lado.

Poderia haver decepção maior pra um menino de oito anos?

Cheguei em casa com uma missão: deixar meus lápis de cor tinindo de tão bem apontados. Havia motivo, eu não poderia decepcioná-la novamente.

No dia seguinte, orgulhoso do meu trabalho na noite anterior, ofereci novamente o meu estojo. Dessa vez a resposta foi outra, bem diferente. Recordo-me até hoje, sem tirar nem pôr palavras:
.
-Nossa, Brunno, que bonito, tudo apontadinho... quer desenhar comigo?

Poderia haver felicidade maior pra um menino de oito anos? 

Não, não poderia. Era época de um amor diferente, de um amor, assim, lápis de cor...

Desde então, caminho sempre com meu lápis apontados. 






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