Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Amor de escola




Acho interessante observar as faces do amor na infância. Toda a ingenuidade, a dificuldade de entender esse sentimento despertado pela primeira vez, a implicância transcendendo para a paixão, surgindo de maneira exacerbada, acanhada e inesperada. Vasculhando o meu baú de fotografias, lembrei de um fato que se encaixa perfeitamente nesta hipótese.

Segunda série, ensino fundamental, oito anos de idade. Recordo que todos tinham alguma paixãozinha no colégio. Na época era definido como 'gostar'. 'Você gosta de quem?'. Todos tinham a sua preferida. E como é bonita essa maneira infantil de definir o amor... Existe algo mais simples e mais belo do que ouvir um 'eu gosto de você.'? Com certeza não, porque é simplesmente gostar mesmo. É coisa de criança.

Toda sala tinha a sua princesa. Ela, que era sempre a primeira a ser procurada com o olhar quando o garoto fazia um gol na aula de educação física. 'Será que ela viu?'. Ela, a protagonista nas pecinhas de teatro de final de ano, que os meninos rezavam pra todos os santos pra ser o seu par na festa junina ou a sua amiga oculta. É, ela, que monopolizava corações. E na minha sala não era diferente.

Por haver alguns colegas com problemas de visão, os lugares na sala de aula eram marcados pela professora. Cada um tinha o seu lugar fixo, que alternava mensalmente. Certa vez - que sorte! - fui contemplado a sentar bem ao lado dela, durante um mês inteirinho. Não podia nem acreditar.

Era o mês de maio, mês da mães, recordo que naquela semana faríamos uns desenhos em homenagem a elas. Eu tinha um daqueles estojos grandes, de zíper, com hidrocor, lápis de cor, giz de cera... um verdadeiro arsenal de cores. Era a minha chance oferecer o estojo e, pela primeira vez, conversar com ela.

Assim que a professora anunciou a tarefa, mostrei meu estojo a ela e perguntei se precisava de alguma coisa. Mas a ideia não deu muito certo. Ela havia pedido meus lápis de cor, mas quase todos estavam sem ponta. Desapontada, devolveu-me e virou pro lado.

Poderia haver decepção maior pra um menino de oito anos?

Cheguei em casa com uma missão: deixar meus lápis de cor tinindo de tão bem apontados. Havia motivo, eu não poderia decepcioná-la novamente.

No dia seguinte, orgulhoso do meu trabalho na noite anterior, ofereci novamente o meu estojo. Dessa vez a resposta foi outra, bem diferente. Recordo-me até hoje, sem tirar nem pôr palavras:
.
-Nossa, Brunno, que bonito, tudo apontadinho... quer desenhar comigo?

Poderia haver felicidade maior pra um menino de oito anos? 

Não, não poderia. Era época de um amor diferente, de um amor, assim, lápis de cor...

Desde então, caminho sempre com meu lápis apontados. 






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domingo, 11 de abril de 2010

Mensagem pra ela não demorar a voltar






Sua chegada é motivo pra carnaval. Ainda que apenas dentro de mim, o mais efusivo carnaval. Sim, você tem desses poderes, essas coisas de transformar lugares e vidas apenas com sua presença. Sua presença tão acalorada e tão serena, talvez ingênua, ápice de qualquer manhã de sol ou qualquer tarde chuvosa. Dona do tempo, transforma dias em sonhos bonitos.
.
Prendo-me ao seu bruxismo. Hipnose instantânea, vinda não sei de onde, mas não daqui, decerto. Flagro-me indefeso, cru, inebriando-me com seu sorriso tímido e fácil, misterioso e revelador.


Tarefa das mais fáceis, admirá-la. Beleza frente e verso, dentro e fora, inexorável, inconfundível ao paradoxar com um jeito acanhado, por vezes assustado, pedindo refúgio e abrigo. Fortaleza torno-me ao flagrar sua soberania. Faz magia e sou cobaia, mergulho de cabeça, estou rendido às antíteses que me proporcionas.


Talvez a vontade do agrado seja proporcional ao medo do passo em falso. Vou devagar, chego de canto, de mansinho, sei que percebes mas não demonstra, faz parte do encanto teu, das suas  nuances, seus trejeitos, sua maneira mais natural de ser especial e absoluta.


Ofereço-te um fim de tarde, tento prolongar, por vezes tu te esquivas, mas sorrio, admiro sua apoteose. As horas do meu dia eu ofereceria como moeda de troca, minhas tarefas jogaria ao alto pra  sermos puro ócio madrugada adentro. Meu regresso é compensado pela alegria ao lembrar que não muito tarde verei-te retornar, e qualquer dia desses nossos mundos passarão a ser apenas um. Vou passo a passo. Não tardará, menina,  já acorrentou. 






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terça-feira, 6 de abril de 2010

Onde eu moro






Onde eu moro não tem nada.

Onde eu moro não tem padaria nem banca de jornal. Onde eu moro não passa ônibus. Onde eu moro não tem cinema, não tem teatro nem livrarias. Onde eu moro não vejo filmes. Onde eu moro não tem aviões. Onde eu moro eu não acendo a luz nm abro a torneira, porque onde eu moro não tem nada disso.

Onde eu moro não tem televisão nem computador. Não tem papel e não tem caneta. Onde eu moro eu não escrevo. Shoppings e lojas? Onde eu moro não tem não. Onde eu moro não tem colégio e não tem universidade. Onde eu moro não tem prédios, não tem avenidas nem alamedas. Onde eu moro não tem nem uma ruelazinha sequer.

Onde eu moro não tem política. Onde eu moro não tem nem Presidente nem Governador nem Prefeito. Onde eu moro não tem legisladores e não tem legislação. Onde eu moro não tem gabinetes. Nem secretarias tem, onde eu moro. Não tem palacetes nem Excelentíssimos. É meio engraçado onde eu moro.

Onde eu moro não tem gente. Onde eu moro não tem bombeiro, nem soldado, nem médico. Bom dia, boa tarde e boa noite? Onde eu moro não tem nada disso. Onde eu moro não tem prosa. Onde moro não tem casais discutindo nem casais amando. Onde eu moro eu não xingo nem elogio. Onde eu moro eu não sou romântico, mas também não sou rude não. Onde eu moro eu simplesmente 'não' porque onde eu moro, mora somente eu.

Mas onde eu moro não tem regras. Onde eu moro eu não obedeço a ninguém e ninguém me obedece. Onde eu moro não tem hierarquia. Onde eu moro eu não peço, mas onde eu moro eu também não mando. Onde eu moro não tem muro. Onde eu moro eu fiz por onde. Onde eu moro não tem limites. Onde eu moro eu vou e vou... e voo.






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sexta-feira, 2 de abril de 2010

Tramoias do amor





Considero-me o tipo do cara que ri para o amor. Ri, não sorri. Sorrir é refletir a alma, é transparecer si próprio. Sorrir é sublime. Rir é cafajestagem, deboche. Justamente o que faço. Não que eu ache digno de vangloriar-me, mas não gosto de 'encher a bola' do amor. É aquela velha conversa: se tratar com excessivo carinho, uma hora você será trocado por um cafajeste. Então conduzo à rédea curta. E aconselho.

Definição para o amor podemos encontrar às pencas, todas no mais alto nível de exaltação. Por que o amor é apenas lindo, majestoso, transcendental? O amor não se sustenta apenas em seu heroísmo, vai mais além, e esse além equivale ao seu oposto, ao seu lado menos glamouroso. Sim, o amor também tem a sua face vilã.

Vilania por vezes não perceptível, ou confundida com destino, com acaso. Amor é coadjuvante mas, egocêntrico, gosta de ser o protagonista. É só dar uma brecha. Amor não entra em campo pra perder, e assim te manipula, te faz de fantoche. O que fazer? Como se desvencilhar? Já era. Você estendeu a mão, mas o amor quer o braço.

Exemplo clássico: Você é inteligente, tem bom papo, um futuro brilhante pela frente, bem apessoada. Sabe que há pretendentes, e não são poucos. Mas de que vale, se você quer apenas uma pessoa? Seria uma massagem no ego? Podemos dizer que sim, mas não é nada que não seja de sua absoluta certeza. Então, como manda o script, você se interessa por uma pessoa. Tudo nos conformes, certo? Errado. Eis que surge o grande vilão da história: o amor. Esta pessoa, justamente essa, não enxerga nada demais em você. Fim da história: toco. Seria cômico se não fosse trágico. Vários no seu pé, mas você prefere um único, e este, por sua vez, não a enxerga da maneira como você esperava. Foi azar? Não. É apenas mais uma tramoia do amor.

O amor gosta de ser moleque, de ser tratado com mimo, de conquistar por sua essência. Mas comigo é diferente. Se o amor é herói, o chamo de anti-herói. Se é sublime, pra mim é apenas mais um. Apoteótico? Que nada! É um reles mortal, esse tal de amor! Se pensa que serei mais um de seus brinquedinhos, vai provar do próprio veneno. Vou usar do efeito inverso. Quem comanda agora sou eu.

E assim travamos, o amor e eu, essa esquizofrênica batalha, ainda não encerrada por motivo de mútuo orgulho. Queda de braços daquelas de dar gosto de assistir, mas admito: tenho medo de ser o vencedor.






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