terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Minha cigarra de estimação.






Cigarras possuem o dom de se camuflar perante meus olhos. Já perdi as contas de quantas vezes parei em frente a árvores, esticando meu pescoço a ponto de ficar com torcicolo na vã tentativa de enxergar uma cigarra no momento do seu canto. Já havia praticamente desistido de vê-las, eis que o acaso resolve me visitar.  

Era por volta de onze da noite. Jantava sossegadamente quando um inseto voador adentra pela janela num voo vagaroso e desengonçado. Parecia ter feito um pouso de emergência no piso da sala. Pensei ser um besouro ou um zangão. Sinceramente, já não me surpreendo mais com a súbita chegada desses seres. Depois que recebi um 'bom dia' de um morcego, pendurado de ponta cabeça no lustre da minha sala, e dos corriqueiros passeios dos miquinhos pelos fios dos postes, nada mais seria inesperado. Antes que sua imaginação ganhe asas: não, eu não sou índio.

No primeiro momento não consegui reconhecer o repentino visitante, mas analisando bem de perto, não tive dúvidas. Era uma cigarra. 

Parei de jantar na mesma hora. Enfim vi de perto aquele inseto que teima em fugir dos meus olhos nas árvores, que só conhecia através de fotos.

Fui empurrando-a vagarosamente para o lado de fora. Parecia estar machucada. Mas o que eu poderia fazer? Vai que ela resolve mostrar seus dotes artísticos e começa a cantar no meio da sala, onde eco pouco é bobagem, às onze da noite? Não mesmo.

Pois bem, com a cigarra devidamente colocada pra fora, continuei meus afazeres. Mas não demorou muito para ela entrar novamente. Deve ter gostado de algo na minha sala. Desta vez, já rendido, não esbocei qualquer reação. Pousara próxima ao computador, onde eu curtia minha enfadonha insônia, e por ali ficou. Intacta. Imaginei que estivesse morta. Delicadamente, coloquei uma folha de revista debaixo dela. Pra quê? Sei lá, foi o que me veio à mente. E parece ter gostado, pois ensaiou um bater de asas, primeiro movimento até então. Respondi: 'De nada, cigarra', e continuei com minhas tarefas.

Por vezes pensava no momento em que minha companheira começaria a cantar. Já não seria mais tão ruim assim, na verdade estava até curioso. Mas nada. Silêncio.

Pesquisando, descobri que algumas cigarras possuem um canto tão sensível capaz de passar despercebido pelos ouvidos humanos. Será que ela estaria cantando ali do meu lado a noite toda, e eu, do alto de minhas limitações, não ouvindo? Que pena.

Por ali ficamos. Cigarra e eu. Durante toda a madrugada. Cúmplices recíprocos.

No dia seguinte, ao retornar do trabalho, encontrei-a morta no mesmo lugar onde deixara. Por uma fração de segundo, senti tristeza. Mas não havia por quê. A natureza seguira seu caminho normal. Amanhã serei eu e por aí vai. 

Dias depois, a caminho do  trabalho, passo em frente a uma goiabeira e ouço um canto de cigarra. Lembrei com certa nostalgia da minha companheira naquela madrugada de insônia. Olhei para o tronco da árvore como que por impulso. E pra minha surpresa lá estava a cigarra, cantando e batendo asas bem diante dos meus olhos, dessa vez sem qualquer dificuldade de achá-la, pelo contrário, parecia se mostrar, imponente e pomposa do seu cantar, como se cumprisse com alguma dívida.

Foi mágico...









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