Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Minha cigarra de estimação.






Cigarras possuem o dom de se camuflar perante meus olhos. Já perdi as contas de quantas vezes parei em frente a árvores, esticando meu pescoço a ponto de ficar com torcicolo na vã tentativa de enxergar uma cigarra no momento do seu canto. Já havia praticamente desistido de vê-las, eis que o acaso resolve me visitar.  

Era por volta de onze da noite. Jantava sossegadamente quando um inseto voador adentra pela janela num voo vagaroso e desengonçado. Parecia ter feito um pouso de emergência no piso da sala. Pensei ser um besouro ou um zangão. Sinceramente, já não me surpreendo mais com a súbita chegada desses seres. Depois que recebi um 'bom dia' de um morcego, pendurado de ponta cabeça no lustre da minha sala, e dos corriqueiros passeios dos miquinhos pelos fios dos postes, nada mais seria inesperado. Antes que sua imaginação ganhe asas: não, eu não sou índio.

No primeiro momento não consegui reconhecer o repentino visitante, mas analisando bem de perto, não tive dúvidas. Era uma cigarra. 

Parei de jantar na mesma hora. Enfim vi de perto aquele inseto que teima em fugir dos meus olhos nas árvores, que só conhecia através de fotos.

Fui empurrando-a vagarosamente para o lado de fora. Parecia estar machucada. Mas o que eu poderia fazer? Vai que ela resolve mostrar seus dotes artísticos e começa a cantar no meio da sala, onde eco pouco é bobagem, às onze da noite? Não mesmo.

Pois bem, com a cigarra devidamente colocada pra fora, continuei meus afazeres. Mas não demorou muito para ela entrar novamente. Deve ter gostado de algo na minha sala. Desta vez, já rendido, não esbocei qualquer reação. Pousara próxima ao computador, onde eu curtia minha enfadonha insônia, e por ali ficou. Intacta. Imaginei que estivesse morta. Delicadamente, coloquei uma folha de revista debaixo dela. Pra quê? Sei lá, foi o que me veio à mente. E parece ter gostado, pois ensaiou um bater de asas, primeiro movimento até então. Respondi: 'De nada, cigarra', e continuei com minhas tarefas.

Por vezes pensava no momento em que minha companheira começaria a cantar. Já não seria mais tão ruim assim, na verdade estava até curioso. Mas nada. Silêncio.

Pesquisando, descobri que algumas cigarras possuem um canto tão sensível capaz de passar despercebido pelos ouvidos humanos. Será que ela estaria cantando ali do meu lado a noite toda, e eu, do alto de minhas limitações, não ouvindo? Que pena.

Por ali ficamos. Cigarra e eu. Durante toda a madrugada. Cúmplices recíprocos.

No dia seguinte, ao retornar do trabalho, encontrei-a morta no mesmo lugar onde deixara. Por uma fração de segundo, senti tristeza. Mas não havia por quê. A natureza seguira seu caminho normal. Amanhã serei eu e por aí vai. 

Dias depois, a caminho do  trabalho, passo em frente a uma goiabeira e ouço um canto de cigarra. Lembrei com certa nostalgia da minha companheira naquela madrugada de insônia. Olhei para o tronco da árvore como que por impulso. E pra minha surpresa lá estava a cigarra, cantando e batendo asas bem diante dos meus olhos, dessa vez sem qualquer dificuldade de achá-la, pelo contrário, parecia se mostrar, imponente e pomposa do seu cantar, como se cumprisse com alguma dívida.

Foi mágico...









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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Por mim mesmo




Se fosse escolher uma palavra que eu não gostasse, em todo o dicionário, provavelmente seria 'estereótipo'. É definida como invariável, inalterável, fixo. Não muda. Sempre a mesma coisa, ontem hoje e sempre. Marasmo, inércia... Sentidos mil poderíamos aplicar, mas acredito que o mais cabível seja também a mais simples: definição.

Oscar Wilde disse que quem se define se limita. Eu iria além. Se diminui, retroage, anda pra trás. Resumindo: envergonha-se. Mesmo que não perceba.

Há quem busque a correta definição de si próprio. No oceano da nossa personalidade, trancar seus sentimentos e reações dentro do calabouço da definição é uma atitude pouco inteligente. Nesse mar eu só navego com barco à vela, e somente a vida sopra os ventos. Busco reconhecer-me, mas não ouso usar da definição, mesmo que eu tenha  passado toda a minha vida junto a mim. Reconhecimento nunca foi definição. Qual seria o limite das nossas qualidades e defeitos? Será que nunca me perdi em um dos caminhos de mim mesmo?

Há quem use de alguns artifícios para buscar a solução. Fotografia? É pouco, quase nada. Todas cegas, surdas e mudas. Seu único valor é servir à saudade. Seu destino é manter-se condenada dentro de um baú.  A fotografia nunca será um retrato teu.

E o que dizer do espelho? Pode passar horas e horas a frente de um, jamais o refletirá. Nunca acredite nas mentiras que os espelhos contam!

Objetos e mais objetos. Nenhuma definição.

Quem sou eu? Não sei, e o dia em que souber não haverá mais nada a fazer. Fim. Serei mais um exemplo da palavra mais temida por mim, e isso eu me recuso. Que dessa esquizofrenia eu jamais me cure.

Céus! Será que nunca seremos nós mesmos?

Quer saber? Tomara.






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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Nosso pós carnaval





Soa de maneira engraçada. Acredito ser até bem comum, principalmente nesta época do ano. Verão, praia, festas, carnaval... Como se este período fosse idealizado apenas para os solteiros. E deve ser mesmo. Mas com prazo de validade.

Parece que a quarta-feira de cinzas decreta uma nova fase na vida de alguns solteiros. Encerrado esse período tão aguardado, findo o horário de verão, terminada as férias... Em suma, o início do ano. Como dizem que amor de praia não sobe serra, admita, retornou à estaca zero. Andou em círculos durante o verão. Eu sei, não há problema, o verão foi feito pra isso mesmo. Então, com o ego nas alturas e com o ar de missão cumprida, ouvimos a frase mais falada no pós verão:

- Pronto, agora vou namorar.

Seria cômico se não fosse trágico. Decerto há a atenuante do calor do momento cumulada com a depressão advinda com o fim do carnaval, mas como toda mentira tem seu fundo de verdade, neste caso não é diferente.

Seria uma subjetiva carência resultante do "beija, beija, tá calor, tá calor"? Pode ser que sim. É como ter tudo e nada ao mesmo tempo. A linha é bem tênue.

E então, vai passar o outono e o inverno desacompanhada? Jamais. A solução é extremamente simples. Arrume um namorado! Lógico! Como não pensou nisso antes?

Talvez por não ser filha de Eros e Afrodite, deuses do amor e, consequentemente, não ser dotada de tal poder. Parece até que estes resolveram tiras férias durante o verão, e retornarão àvidos posteriormente, a fim de recuperar o tempo perdido.

Como se namorar fosse medido de acordo com as estações. Verão é solteirice, inverno é filme e pipoca no edredom. Primavera e outono são amistosos e pré-temporadas. Pra valer mesmo são apenas duas  partidas de noventa dias mais acréscimos. 

Não vou dizer que seja impossível, pois há quem arrisque e consiga juntar o útil ao agradável. Mas duvido que resista ao primeiro 'hoje não posso, não estou muito bem', ao primeiro 'não gosto desse filme, podemos ver outro?'. Sente-se indiferente caso não receba uma mensagem pela manhã contendo um 'eu te amo', não se incomoda caso não ouça um 'Nossa, como você tá linda!' quando termina de se arrumar pra ir ao shopping.

Admito, também já soltei essa célebre frase. Não me sinto mal, não há pecado, apenas esqueci que algo tão grandioso é inerente a sensações impossíveis de definir, bem como a pequenas coisas que não podemos enxergar a olhos nus.

Dois amigos meus foram além. Afirmam que encontrarão a amada até, no máximo, quinze dias após o carnaval. Tolamente acompanharei. Se conseguirem, passarão a ser donos de uma das maiores invenções da humanidade, perdendo apenas para o óleo de peróba.

Diante de tanto poder, a ressaca pós verão soa mais condizente a este reles mortal que vos escreve.






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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Sintomas






Surge quando menos se espera. Quando achávamos que jamais surgiria ou voltaria a surgir. Quando os olhos teimavam em não ver além. Mas não há como negar. Chega de maneira total? Nem sempre. Acredito que seja de mansinho, acanhado, comendo pelas beiradas, obrigando-nos a desvendar, pois não se trata de algo que surja todos os dias.
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Não é coisa das mais fáceis de reparar. É necessário prestar atenção nos mínimos detalhes, pois aos poucos as pistas vão surgindo, e de maneira cada vez maior. Lembra timidamente o período de gestação, mas ao invés de sentir náuseas e dores, sente arrepios, você sua e treme, sente frio e calor, tudo ao mesmo tempo.
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Não é possível? Sim, garanto que é. Basta apenas que também chegue pra você.
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Analisando bem, pode até ser que sinta uma dor, mas é uma dor gostosa, por mais que soe paradoxalmente. É uma dor misturada com um quê de alegria, com um quê de saudade, com um quê de se saber feliz.
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Dizem ser uma espécie de sexto sentido, controlador de todos os outros. Sente-se mais perceptível a cenas e fatos antes nunca reparados.
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 "Nossa, o pôr do sol é tão bonito assim?" É mais ou menos por aí.
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Torna-se mais criança e mais humano. Diria até que contém algo de divino, uma mensagem angelical, um conchavo dos Deuses.
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Há quem pergunte do que é feito, mas não há resposta. Já pensou se virasse algo banalizado, vendido em farmácia? "Basta uma colher de sopa, de três em três horas, e em uma semana já verá o resultado! Adquira já o seu!" Deus nos livre!
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Se repararmos bem, pode-se dizer que seja algo inerente a todos. Como se já nascesse conosco, mas foge, com o intuito único de fazermos por merecer o seu retorno.
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E como descobrimos já sermos merecedores? Se houvesse resposta, não haveria encanto...
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Você se sente uma fortaleza. Mas é capaz de sair voando com a primeira brisa que bater.
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 Por que seus olhos ganharam mais vida? Por que deixa escapulir sorrisos quando sozinha no meio da rua? Por que o estresse cotidiano já não te tira mais o bom humor? Por que passou a reparar no canto dos pássaros nos fios do poste próximo a sua casa?
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 Talvez por se sentir exatamente como estes: nas nuvens.
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  O que está acontecendo com você? Os sintomas são evidentes. É a mais pura contaminação, e não há remédio que a combata.
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Permita-se ser contaminada...






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