terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Relato de um defunto.




Morri. 
 
Lembro-me perfeitamente da cena. A sensação foi bem esquisita, estava sentado no sofá e, do nada,  empacotei. Não tive tempo de agonizar, já fui batendo as botas. Não sei diagnosticar a causa, mas foi algo fulminante. Ora, será que eu, na flor da idade, sofri uma parada cardíaca? Ou uma bala perdida adentrou no conforto e segurança do meu lar, bem na direção do meu sofá? Acredito que não. Mas agora pouco importa, não pertenço mais a este mundo.

O meu velório foi bem pitoresco. Nunca consegui reunir tanta gente, e a maioria fazia questão de me ver dentro daquele caixão, magro, pálido e gelado. Fiquei constrangido, mas o que eu poderia fazer? Reclamar? Assim, fui conduzido ao meu túmulo. Essa foi, sem sombra de dúvidas, a pior parte. Sempre fui claustrofóbico, e a sensação de passar anos e anos soterrado a sete palmos do chão, até que meu corpo entre no estado de putrefação a ponto de meus restos caberem em um baú, não é nada agradável. Logo eu, que sempre gozei de boa saúde. Triste fim.

Mas me vejo na obrigação de vangloriar meus amigos defuntos que optaram por serem cremados. Reduzir-se a pó é uma atitude de coragem inestimável. Confesso ser medroso demais para isso. Prefiro ficar no baú mesmo.

A verdade é que esse papo de morrer propiciará a descoberta de um dos maiores segredos da humanidade: pra onde vamos depois de morrermos? Será que aquele papo que o bonzinho vai pro céu e o mau vai pro inferno é verdade? Confesso que, movido por uma súbita paranoia, tentei lembrar de todas as fases da minha vida, a fim de descobrir qual das duas opções passará a ser o meu lar por toda a eternidade. Lembro-me que, aos sete anos, torci o pé do meu coleguinha na aula de educação física. Aos doze, estourei, com uma bombinha, a caixa de correio do meu vizinho da direita. Aos dezenove, depois de umas boas doses de tequila, arruinei a tão esperada festa de 15 anos da minha prima (Não me peçam pra contar detalhes, foi uma experiência bem traumática). Bem, é melhor eu parar por aqui, estou carimbando minha passagem para o andar de baixo.

Contudo,  fiz muitas boas ações enquanto vivo. Tenho certeza q fiz. Certeza absoluta [...] É, acho que essa parte da minha memória também bateu as botas.

Pelo jeito o belzebu virá me buscar a qualquer momento. Admito que será interessante conhecê-lo, e desvendar se, realmente, trata-se daquela figura vermelha, com chifre, rabo e tridente, ou se surgirá na figura de uma estonteante loura a fim de me tentar.

Ou então, devido a algum milagre (há ocasião mais apropriada pra acontecer?), o cara lá de cima concorde que eu mereça uma vaga no céu, e assim eu passe toda a eternidade no paraíso, trajando uma roupa branca e caminhando por aqueles lindos jardins.

Mas o certo é que, por enquanto, nenhuma divindade se interessou em me buscar. Será que nem mesmo o capeta deseja a minha presença? Ou será que deixei algo por fazer em vida, e terei que realizar depois de morto para, assim, cumprir minha missão, como em "Ghost" e "O sexto sentido"? Difícil. Só se a minha missão for tirar as dezenas de folhas de amendoeira que caem diariamente sobre meu túmulo.

Ultimamente minha diversão tem sido beber vinho com a galera gótica à noite ou conversar com dona Sebastiana, minha vizinha do túmulo 78, "gente" boa. No mais, essa vida de morto tem sido bem monótona.

Pra onde vamos depois de morrer? Quem é Deus? Como é o capeta? Inferno e paraíso existem? Sinceramente, não sei. Só posso afirmar que o ditado "partir dessa pra uma melhor" é uma das mentiras mais descabidas da humanidade.










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