sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

E eu digo que ela é gostosa






Morri de rir. Na verdade acredito ter sido um misto de espanto e indagação. Não havia presenciado nenhuma cena alarmante, mas sim algo extremamente normal. Uma esbelta mulher fora chamada de gostosa por um grupo de homens que bebia cerveja num quiosque no calçadão da praia. Uma cena mais que rotineira.

Mas o que realmente me chamou a atenção foi a expressão daquela mulher, me obrigando a admitir não ter encontrado adjetivo capaz de definir.

Ora, quais reações essa inocente palavra é capaz de causar em uma mulher?

Não é preciso adentrar à mente feminina para reparar nos efeitos colaterais. É o elogio mais desaforado que conheço. É necessário remetermo-nos aos tempos primórdios, afinal, não vivemos mais nos tempos das cavernas, e as mulheres não mais são arrastadas pelos cabelos feito desenho animado. Evoluímos, e não apenas físicamente. Logo, elas esperam da mente dos homens algo um pouco mais interessante que um vago "gostosa". Nada muito além de uma atitude mais delicada e carinhosa para com elas. Ao contrario, regrediríamos àqueles tempos antigos, aonde a palavra do macho era dita em tom ditatorial. Devem se sentir exatamente assim, e não lhes tiro a razão.

Contudo, se fosse simplesmente isso, o papo estaria encerrado.

Comecemos analisando as próprias mulheres, mais especificamente a citada no início do texto: aparenta não ter gostado do elogio, mas tenho certeza que se os tiozinhos não a tivessem reparado, fossem indiferentes a sua presença ali, muito provavelmente sua reação seria bem pior, porém de maneira integralmente introvertida. "Se não consigo chamar a atenção nem desses aí, quando que aquele cara do trabalho olhará pra mim?", pensaria ela. E tome dieta, malhação...

Há também aquela que resolve replicar, afirmando que não, não é gostosa. Nossa, que mulher baixo astral, deve ter a autoestima mais que apagada, correto? Negativo. Apenas pretende que ratifiquemos nossa afirmativa, em um explícito exercício do narcisismo, aquela massagem no ego, o acalentamento da vaidade.

Se há algo de mal nisso? Não, absolutamente. Mas não esqueça, tudo começou com um "gostosa".

Vamos observar a questão ocasião-oportunidade. Se os pedreiros resolvessem não chamar de gostosa aquela mulher de minissaia passando em frente a obra, e sim declamassem, uníssonamente, o "Soneto do Amor Total", de Vinícius de Moraes? Convenhamos, seria bem mais encabuloso.

Façamos justiça aqui. Tal rotulagem não limita-se apenas aos velhinhos tarados e aos pedreiros. Não precisamos ir longe, basta lembrarmos daquela famosa canção de Jorge Ben Jor: "Gostosa, ela é gostosa...". Querem saber? Duvido que Tom Jobim, ao ver Helô Pinheiro nas areias de Ipanema, tenha falado que "seu balançado é mais que um poema". Deve ter é chamado de gostosa.

Gostosa não é um termo depreciativo, tampouco uma agressão. Já faz parte do nosso folclore. Ruim seria se passeássemos pelas ruas e tivéssemos como visão aquelas gringas que não possuem metade da beleza de nossas conterrâneas.

A mulher brasileira é, sem sombra de dúvidas, muito gostosa. Ainda bem!










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