Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Relacionamentos modernos






Sempre enxerguei de maneira positiva esses avanços tecnológicos. Compro, pago, combino, vendo, tudo pela internet. As obsoletas atividades do horário de almoço do trabalho, tal como a fila do banco para pagamento de contas já não fazem mais parte da minha rotina. Século vinte e um, que maravilha! Tudo à frente da tela do computador ou do celular. Talvez aí é que more um problema. É tudo mesmo.

A tecnologia trouxe a possibilidade de, digamos, ampliarmos os limites dos nossos sentimentos. Você conheceu aquela pessoa super educada, inteligente, culta e, ainda por cima linda. Logo pensa: nossa! Ele não tem defeitos! Mas basta perguntar onde mora. Resposta: a trezentos quilômetros da sua casa. Agora tá explicado. Alguém com tantas qualidades não poderia mesmo ser dessa cidade, indaga-se. A oportunidade não bateu a sua porta, já chegou arrombando. Então, vai deixar esse partidão sumir assim, tão rapidamente como surgiu? Óbvio que não. Quilômetros transformam-se em metros em questão de segundos. O amor transcende a tudo. Lógico, se seu 3G não for do tipo 'morto'. 

No começo, tudo são flores. Flores virtuais, mas são. "Eu te amo" nunca foi tão facilmente escrito. Por facebook, Instagram, whatsapp... Equivale a um bom dia, boa tarde e boa noite, e talvez também seja assim com as declarações de amor. Você não diz exatamente a verdade, mas tudo fica entendido. Ou subentendido.

O apaixonado casal conversa todos os dias pela internet. O skype passa a ser a extensão de seus corações, a ponto deste ter seus batimentos duplicados ao vê-lo online, e entristecer quando, subitamente, o amado desconecta-se. Sábado à noite é marcado um jantar à luz de velas. E à luz da webcam. Sexo virtual? poupo-lhes dos detalhes...

Tudo segue na mais perfeita -e implícita- harmonia.

Porém, eis que surge o arquirrival de qualquer relacionamento: o tempo. Esperto que só, não chega desacompanhado. Traz consigo o enfado, a rotina, a insegurança... que neste caso, surge com um poder imensuravelmente maior.

Não é complicado de se observar uma iminente turbulência no relacionamento. Mais de dois minutos sem conversa no whatsapp, por exemplo, já é motivo suficiente para despertar a insegurança. Aquele engarrafamento de quilômetros numa área sem cobertura 3G lhe obriga a responder as mensagens duas horas depois? Seja criativo e arrume outra desculpa. Seu computador foi invadido pelo famigerado "Cavalo de Troia" assim que você clicou naquele link que anunciava um pack de fotos das peladonas e dos saradões do BBB? Sua operadora passará uma semana em manutenção, obrigando-lhe a tornar-se uma excluída digital durante este tempo? Danou-se, é tragédia na certa.

Não que eu enxergue algo de inverossímil neste tipo de relação. Longe de mim. Na verdade, ninguém é tão onipotente a ponto de pré julgar sentimento alheio. Vejo-me na obrigação de admitir que certa vez quase atirei meu celular pela janela devido a uma mensagem não respondida.

Entretanto, tudo tem o seu limite. Os meios de comunicação à distância estão à nossa disposição para usufruirmos, e não estes usufruirem de nós. Imperceptivelmente, o namoro pode tornar-se aquele místico ménage à trois. Você, seu namorado e seu celular. Um surubão, no bom português.

O relacionamento até pode ser a distância. Mas o amor e a confiança, esses sim, são impossíveis de se ausentar. 







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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Relato de um defunto.




Morri. 
 
Lembro-me perfeitamente da cena. A sensação foi bem esquisita, estava sentado no sofá e, do nada,  empacotei. Não tive tempo de agonizar, já fui batendo as botas. Não sei diagnosticar a causa, mas foi algo fulminante. Ora, será que eu, na flor da idade, sofri uma parada cardíaca? Ou uma bala perdida adentrou no conforto e segurança do meu lar, bem na direção do meu sofá? Acredito que não. Mas agora pouco importa, não pertenço mais a este mundo.

O meu velório foi bem pitoresco. Nunca consegui reunir tanta gente, e a maioria fazia questão de me ver dentro daquele caixão, magro, pálido e gelado. Fiquei constrangido, mas o que eu poderia fazer? Reclamar? Assim, fui conduzido ao meu túmulo. Essa foi, sem sombra de dúvidas, a pior parte. Sempre fui claustrofóbico, e a sensação de passar anos e anos soterrado a sete palmos do chão, até que meu corpo entre no estado de putrefação a ponto de meus restos caberem em um baú, não é nada agradável. Logo eu, que sempre gozei de boa saúde. Triste fim.

Mas me vejo na obrigação de vangloriar meus amigos defuntos que optaram por serem cremados. Reduzir-se a pó é uma atitude de coragem inestimável. Confesso ser medroso demais para isso. Prefiro ficar no baú mesmo.

A verdade é que esse papo de morrer propiciará a descoberta de um dos maiores segredos da humanidade: pra onde vamos depois de morrermos? Será que aquele papo que o bonzinho vai pro céu e o mau vai pro inferno é verdade? Confesso que, movido por uma súbita paranoia, tentei lembrar de todas as fases da minha vida, a fim de descobrir qual das duas opções passará a ser o meu lar por toda a eternidade. Lembro-me que, aos sete anos, torci o pé do meu coleguinha na aula de educação física. Aos doze, estourei, com uma bombinha, a caixa de correio do meu vizinho da direita. Aos dezenove, depois de umas boas doses de tequila, arruinei a tão esperada festa de 15 anos da minha prima (Não me peçam pra contar detalhes, foi uma experiência bem traumática). Bem, é melhor eu parar por aqui, estou carimbando minha passagem para o andar de baixo.

Contudo,  fiz muitas boas ações enquanto vivo. Tenho certeza q fiz. Certeza absoluta [...] É, acho que essa parte da minha memória também bateu as botas.

Pelo jeito o belzebu virá me buscar a qualquer momento. Admito que será interessante conhecê-lo, e desvendar se, realmente, trata-se daquela figura vermelha, com chifre, rabo e tridente, ou se surgirá na figura de uma estonteante loura a fim de me tentar.

Ou então, devido a algum milagre (há ocasião mais apropriada pra acontecer?), o cara lá de cima concorde que eu mereça uma vaga no céu, e assim eu passe toda a eternidade no paraíso, trajando uma roupa branca e caminhando por aqueles lindos jardins.

Mas o certo é que, por enquanto, nenhuma divindade se interessou em me buscar. Será que nem mesmo o capeta deseja a minha presença? Ou será que deixei algo por fazer em vida, e terei que realizar depois de morto para, assim, cumprir minha missão, como em "Ghost" e "O sexto sentido"? Difícil. Só se a minha missão for tirar as dezenas de folhas de amendoeira que caem diariamente sobre meu túmulo.

Ultimamente minha diversão tem sido beber vinho com a galera gótica à noite ou conversar com dona Sebastiana, minha vizinha do túmulo 78, "gente" boa. No mais, essa vida de morto tem sido bem monótona.

Pra onde vamos depois de morrer? Quem é Deus? Como é o capeta? Inferno e paraíso existem? Sinceramente, não sei. Só posso afirmar que o ditado "partir dessa pra uma melhor" é uma das mentiras mais descabidas da humanidade.










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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

E eu digo que ela é gostosa






Morri de rir. Na verdade acredito ter sido um misto de espanto e indagação. Não havia presenciado nenhuma cena alarmante, mas sim algo extremamente normal. Uma esbelta mulher fora chamada de gostosa por um grupo de homens que bebia cerveja num quiosque no calçadão da praia. Uma cena mais que rotineira.

Mas o que realmente me chamou a atenção foi a expressão daquela mulher, me obrigando a admitir não ter encontrado adjetivo capaz de definir.

Ora, quais reações essa inocente palavra é capaz de causar em uma mulher?

Não é preciso adentrar à mente feminina para reparar nos efeitos colaterais. É o elogio mais desaforado que conheço. É necessário remetermo-nos aos tempos primórdios, afinal, não vivemos mais nos tempos das cavernas, e as mulheres não mais são arrastadas pelos cabelos feito desenho animado. Evoluímos, e não apenas físicamente. Logo, elas esperam da mente dos homens algo um pouco mais interessante que um vago "gostosa". Nada muito além de uma atitude mais delicada e carinhosa para com elas. Ao contrario, regrediríamos àqueles tempos antigos, aonde a palavra do macho era dita em tom ditatorial. Devem se sentir exatamente assim, e não lhes tiro a razão.

Contudo, se fosse simplesmente isso, o papo estaria encerrado.

Comecemos analisando as próprias mulheres, mais especificamente a citada no início do texto: aparenta não ter gostado do elogio, mas tenho certeza que se os tiozinhos não a tivessem reparado, fossem indiferentes a sua presença ali, muito provavelmente sua reação seria bem pior, porém de maneira integralmente introvertida. "Se não consigo chamar a atenção nem desses aí, quando que aquele cara do trabalho olhará pra mim?", pensaria ela. E tome dieta, malhação...

Há também aquela que resolve replicar, afirmando que não, não é gostosa. Nossa, que mulher baixo astral, deve ter a autoestima mais que apagada, correto? Negativo. Apenas pretende que ratifiquemos nossa afirmativa, em um explícito exercício do narcisismo, aquela massagem no ego, o acalentamento da vaidade.

Se há algo de mal nisso? Não, absolutamente. Mas não esqueça, tudo começou com um "gostosa".

Vamos observar a questão ocasião-oportunidade. Se os pedreiros resolvessem não chamar de gostosa aquela mulher de minissaia passando em frente a obra, e sim declamassem, uníssonamente, o "Soneto do Amor Total", de Vinícius de Moraes? Convenhamos, seria bem mais encabuloso.

Façamos justiça aqui. Tal rotulagem não limita-se apenas aos velhinhos tarados e aos pedreiros. Não precisamos ir longe, basta lembrarmos daquela famosa canção de Jorge Ben Jor: "Gostosa, ela é gostosa...". Querem saber? Duvido que Tom Jobim, ao ver Helô Pinheiro nas areias de Ipanema, tenha falado que "seu balançado é mais que um poema". Deve ter é chamado de gostosa.

Gostosa não é um termo depreciativo, tampouco uma agressão. Já faz parte do nosso folclore. Ruim seria se passeássemos pelas ruas e tivéssemos como visão aquelas gringas que não possuem metade da beleza de nossas conterrâneas.

A mulher brasileira é, sem sombra de dúvidas, muito gostosa. Ainda bem!










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