quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Eu ia lhe chamar enquanto corria a barca






Segunda-feira, por volta de uma hora da tarde. Aquele mesmo nauseático balanço. Apoio-me em um dos bancos da barca, sento e aguardo a minha rotineira e monótona viagem de 17 minutos rumo ao trabalho. O trajeto Niterói - Rio de Janeiro já não me enche mais os olhos. Sei que na esquerda está o Museu de Arte Contemporânea e à direita a ponte Rio-Niterói. Nada demais pra mim. Mas não pra eles.
 
No intervalo entre uma e outra música no meu MP3, escuto umas vozes esquisitas, em um dialeto um tanto que enrolado. Reparo que, um pouco a frente de mim, havia um grupo de turistas orientais. Logo associei a japoneses, pois, para nós, qualquer oriental é japonês.
 
Comecei a notar suas reações, e o quão maravilhados estavam com aquele passeio. Porém, alguns minutos depois, parecia que a alegria havia cedido lugar à frustração. Pelo o que entendi, a tia dos olhinhos puxados não conseguira fotografar alguma paisagem, acredito ser o Pão de Açúcar. A janela não dava mais ângulo. Confesso que fiquei preocupado ao vê-la pendurada naquela estreita janela, na vã tentativa de lograr êxito em seu registro. Em uma visão mais materialista, entrevi a Sony Cyber Shot 12.1 da japa na iminência de juntar-se aos pneus e às latas de alumínio, no fundo da Baía de Guanabara. 
 
Após este imbróglio protagonizado pelos nossos simpáticos visitantes, flagrei-me a divagar: não é que aquela antiga barca, praticamente um teco-teco dos mares, faz falta?!

Lembrei dos meus passeios nesta famigerada embarcação, e de como aquele trajeto de 30 minutos era agradável.

Decerto que naqueles tempos eu não ia ao outro lado da "poça" para trancafiar-me em uma sala, pois as referidas lembranças datam de quase uma década atrás. Mas e daí? Tais circunstâncias devem ter propiciado casos praticamente impossíveis de acontecer nos dias de hoje. Por exemplo, quantas pessoas se conheceram, namoraram e casaram a partir daquele sorvete na varandinha da popa dessa barca, com a brisa do vento juntando-se ao frescor de uma Baía de Guanabara praticamente límpida? Os tempos eram outros, e a pressa, por muitas vezes instintiva e desmotivada, também. Tempos que só as minhas mais vagas lembranças conseguem trazer à tona.
 
Pior para aquele pequeno nissei, ainda não tem altura pra alcançar os aproximadamente 1,40m da janela. Terá uma lembrança cinza, bem como a parede desta.
 
Após várias (e infrutíferas) ideias para tentar a viagem dos gringos mais agradável, resolvi fazer o caminho inverso: será que, no dia em que eu for ao Japão, algum deles se preocupará caso eu não consiga ângulo para alguma foto, ou mesmo sentir um ventinho fresco, em uma viagem no trem bala suspenso, a 400 km/h? Acredito que não. Ainda deveriam agradecer por a barca não navegar o equivalente a 400 km/h em milhas náuticas! É olho por olho, dente por dente, meu chapa! E sayonara!

Então, tomado por uma forte sensação egocêntrica, relaxei. A funcionalidade vencera o romantismo, e não havia nada a fazer acerca disso. Mas quando percebi, estava como os japoneses, fotografando a minha "rotineira e monótona" viagem. Pena que só consegui uma foto, a viagem chegara ao fim. Mas não há problema, amanhã ainda é terça-feira.










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