terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O super-herói do século XXI






Rio de Janeiro. Verão, 40 graus. O traje adequado é, sem dúvidas, um bermudão, uma camiseta, óculos escuro e uma cadeira de praia a tiracolo, certo? Errado. A indumentária correta seria um belo de um terno.

Admito que antes de ingressar na "Liga da Justiça", observava as pessoas trajando essas pomposas vestimentas. Pareciam seres superiores, dotados de um poder econômico e intelectual infinitamente superior àquele reles mortal vestindo uma camiseta regata.

Até o dia que me tornei um desses.

Foi só vestir o terno para me sentir exatamente assim. Praticamente um super-herói.

E como todo super-herói não tem vida fácil, comigo não foi muito diferente. Perdi as contas de quantas senhorinhas precisei ajudar enquanto vestido desta suntuosa armadura. Em quem nossas vovós confiariam a tarefa de ajudá-las a atravessar uma avenida? Àquele barbudo de chinelo e sem camisa? A quem os turistas pediriam uma informação a qual tivessem certeza que a resposta não os levaria a algum lugar perigoso? Sim, àquele imponente ser de terno.

E os mendigos, ao pedir esmola, não preciso perder meu tempo dizendo a quem eles procuravam, certo?

Então percebi que eu não estava apenas em um estágio de direito.

Porém, nunca reclamei das funções inerentes à minha escolha.

Mas será que, na verdade, eu fui escolhido ao invés de escolher?


Como todo super-herói, eu possuía meus momentos de regalia. Sempre era o primeiro a receber o pedido nas lanchonetes, era muitíssimo bem tratado nas lojas (principalmente as mais caras), e pronomes de tratamento eu recebia aos montes. Variava entre doutor quando eu estava nos grandes centros, e pastor quando frequentava algum lugar mais simples.

Mas todos no mesmo nível de admiração e carinho.

Possuímos uma base-secreta. Por não ser mais tão secreta assim, não vejo problema em dizer que localiza-se nos fóruns e nos grandes prédios comerciais.

Mas há também os falsos heróis, destes que vestem nosso manto sem saber o seu verdadeiro significado. Estes costumam frequentar casamentos e festas de debutantes. Cuidado! Não se engane!

Gostaria de dizer que somos seres imbatíveis, mas eu seria leviano. Há uma espécie de cryptonita, a única coisa capaz de atingir a nossa armadura.

É o sol.

Principalmente no verão, alguns de nós não resistem a essa imensa força e desmaiam.

Mas esta é a cruz que carregamos. Talvez uma prova para aniquilar os super-heróis modistas, destes que querem apenas se vangloriar usando de nossa vestimenta. Geralmente desistem antes da metade da faculdade.

Mas já há um tempo que meu terno não sai do armário. Meu novo trabalho permite que eu me vista como um simples mortal.

Já não recebo mais olhares de admiração pelas ruas.

As velhinhas já não me pedem mais ajuda.

Os turistas não confiam mais em mim.

Os mendigos pensam oito vezes antes de me pedir esmolas.

O porteiro do meu prédio agora me chama de "campeão" ao me ver chegar.

Mas isso tudo é passageiro.

Tão logo encerrado meu período de adaptação, retirarei meus ternos do armário, vestirei e voltarei a ser aquele que gosto de denominar como "o herói do caos", escolhido pelo povo.

O super-herói do século XXI.










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