Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O super-herói do século XXI






Rio de Janeiro. Verão, 40 graus. O traje adequado é, sem dúvidas, um bermudão, uma camiseta, óculos escuro e uma cadeira de praia a tiracolo, certo? Errado. A indumentária correta seria um belo de um terno.

Admito que antes de ingressar na "Liga da Justiça", observava as pessoas trajando essas pomposas vestimentas. Pareciam seres superiores, dotados de um poder econômico e intelectual infinitamente superior àquele reles mortal vestindo uma camiseta regata.

Até o dia que me tornei um desses.

Foi só vestir o terno para me sentir exatamente assim. Praticamente um super-herói.

E como todo super-herói não tem vida fácil, comigo não foi muito diferente. Perdi as contas de quantas senhorinhas precisei ajudar enquanto vestido desta suntuosa armadura. Em quem nossas vovós confiariam a tarefa de ajudá-las a atravessar uma avenida? Àquele barbudo de chinelo e sem camisa? A quem os turistas pediriam uma informação a qual tivessem certeza que a resposta não os levaria a algum lugar perigoso? Sim, àquele imponente ser de terno.

E os mendigos, ao pedir esmola, não preciso perder meu tempo dizendo a quem eles procuravam, certo?

Então percebi que eu não estava apenas em um estágio de direito.

Porém, nunca reclamei das funções inerentes à minha escolha.

Mas será que, na verdade, eu fui escolhido ao invés de escolher?


Como todo super-herói, eu possuía meus momentos de regalia. Sempre era o primeiro a receber o pedido nas lanchonetes, era muitíssimo bem tratado nas lojas (principalmente as mais caras), e pronomes de tratamento eu recebia aos montes. Variava entre doutor quando eu estava nos grandes centros, e pastor quando frequentava algum lugar mais simples.

Mas todos no mesmo nível de admiração e carinho.

Possuímos uma base-secreta. Por não ser mais tão secreta assim, não vejo problema em dizer que localiza-se nos fóruns e nos grandes prédios comerciais.

Mas há também os falsos heróis, destes que vestem nosso manto sem saber o seu verdadeiro significado. Estes costumam frequentar casamentos e festas de debutantes. Cuidado! Não se engane!

Gostaria de dizer que somos seres imbatíveis, mas eu seria leviano. Há uma espécie de cryptonita, a única coisa capaz de atingir a nossa armadura.

É o sol.

Principalmente no verão, alguns de nós não resistem a essa imensa força e desmaiam.

Mas esta é a cruz que carregamos. Talvez uma prova para aniquilar os super-heróis modistas, destes que querem apenas se vangloriar usando de nossa vestimenta. Geralmente desistem antes da metade da faculdade.

Mas já há um tempo que meu terno não sai do armário. Meu novo trabalho permite que eu me vista como um simples mortal.

Já não recebo mais olhares de admiração pelas ruas.

As velhinhas já não me pedem mais ajuda.

Os turistas não confiam mais em mim.

Os mendigos pensam oito vezes antes de me pedir esmolas.

O porteiro do meu prédio agora me chama de "campeão" ao me ver chegar.

Mas isso tudo é passageiro.

Tão logo encerrado meu período de adaptação, retirarei meus ternos do armário, vestirei e voltarei a ser aquele que gosto de denominar como "o herói do caos", escolhido pelo povo.

O super-herói do século XXI.










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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Eu ia lhe chamar enquanto corria a barca






Segunda-feira, por volta de uma hora da tarde. Aquele mesmo nauseático balanço. Apoio-me em um dos bancos da barca, sento e aguardo a minha rotineira e monótona viagem de 17 minutos rumo ao trabalho. O trajeto Niterói - Rio de Janeiro já não me enche mais os olhos. Sei que na esquerda está o Museu de Arte Contemporânea e à direita a ponte Rio-Niterói. Nada demais pra mim. Mas não pra eles.
 
No intervalo entre uma e outra música no meu MP3, escuto umas vozes esquisitas, em um dialeto um tanto que enrolado. Reparo que, um pouco a frente de mim, havia um grupo de turistas orientais. Logo associei a japoneses, pois, para nós, qualquer oriental é japonês.
 
Comecei a notar suas reações, e o quão maravilhados estavam com aquele passeio. Porém, alguns minutos depois, parecia que a alegria havia cedido lugar à frustração. Pelo o que entendi, a tia dos olhinhos puxados não conseguira fotografar alguma paisagem, acredito ser o Pão de Açúcar. A janela não dava mais ângulo. Confesso que fiquei preocupado ao vê-la pendurada naquela estreita janela, na vã tentativa de lograr êxito em seu registro. Em uma visão mais materialista, entrevi a Sony Cyber Shot 12.1 da japa na iminência de juntar-se aos pneus e às latas de alumínio, no fundo da Baía de Guanabara. 
 
Após este imbróglio protagonizado pelos nossos simpáticos visitantes, flagrei-me a divagar: não é que aquela antiga barca, praticamente um teco-teco dos mares, faz falta?!

Lembrei dos meus passeios nesta famigerada embarcação, e de como aquele trajeto de 30 minutos era agradável.

Decerto que naqueles tempos eu não ia ao outro lado da "poça" para trancafiar-me em uma sala, pois as referidas lembranças datam de quase uma década atrás. Mas e daí? Tais circunstâncias devem ter propiciado casos praticamente impossíveis de acontecer nos dias de hoje. Por exemplo, quantas pessoas se conheceram, namoraram e casaram a partir daquele sorvete na varandinha da popa dessa barca, com a brisa do vento juntando-se ao frescor de uma Baía de Guanabara praticamente límpida? Os tempos eram outros, e a pressa, por muitas vezes instintiva e desmotivada, também. Tempos que só as minhas mais vagas lembranças conseguem trazer à tona.
 
Pior para aquele pequeno nissei, ainda não tem altura pra alcançar os aproximadamente 1,40m da janela. Terá uma lembrança cinza, bem como a parede desta.
 
Após várias (e infrutíferas) ideias para tentar a viagem dos gringos mais agradável, resolvi fazer o caminho inverso: será que, no dia em que eu for ao Japão, algum deles se preocupará caso eu não consiga ângulo para alguma foto, ou mesmo sentir um ventinho fresco, em uma viagem no trem bala suspenso, a 400 km/h? Acredito que não. Ainda deveriam agradecer por a barca não navegar o equivalente a 400 km/h em milhas náuticas! É olho por olho, dente por dente, meu chapa! E sayonara!

Então, tomado por uma forte sensação egocêntrica, relaxei. A funcionalidade vencera o romantismo, e não havia nada a fazer acerca disso. Mas quando percebi, estava como os japoneses, fotografando a minha "rotineira e monótona" viagem. Pena que só consegui uma foto, a viagem chegara ao fim. Mas não há problema, amanhã ainda é terça-feira.










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