Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Acontece que uma hora as pessoas somem




Costumo ter a ingênua esperança de que toda reciprocidade se desenhará eterna, de que se até ontem alguém me sorriu e ouviu com atenção minhas gargalhadas e meus desesperos, ouvirá também sempre que a saudade bater e a noite seja como uma daquelas tantas que mereciam não ter fim.. .

Acontece que uma hora as pessoas somem, aos poucos o companheirismo cede lugar apenas às lembranças, as boas risadas tornam-se palavras frias e mensagens preguiçosamente respondidas, por que uma cumplicidade tão bonita se desinventa? Por que os bons momentos de ontem não podem se repetir hoje? Por que há de ter um fim?. .

Olho as fotos de quem tanto já me ofereceu ombro e tenho a impressão de recordar de alguém estranho, de alguém que parece se sentir bastante confortável em saber que aos poucos estou saindo de sua vida, e eu penso nessa imposição do destino, de tirar pessoas da nossa vida, embora me doa eu sei que não posso obrigar ninguém a ficar, a permanecer sob o cuidado dos meus olhos. Sim, é claro que isso faz sofrer, um sofrimento vindo do desinteresse, do desleixo, da pouca ou nenhuma questão da companhia.

Não minto, ainda guardo esperanças, anseio que amanhã a minha falta seja sentida e o meu telefone toque e alguém com uma voz bastante entusiasmada me chame pra uma mesa de bar pra resgatar finalmente o tempo, que me pergunte da maneira mais sincera "como andam as coisas?, perdoe o meu sumiço, a vida estava corrida mas agora estou de volta!", mas enquanto isso não acontece fico aqui, doendo de saudade de quem preferiu se vestir de esquecimento.

Um texto sobre o desejo do reencontro






Eu ainda tenho um porta-retratos velho e empoeirado dentro do armário aguardando uma foto de nós dois. O espaço pra colocá-lo na estante entre os livros já existe também. Há um lugar separado no meu peito, esse peito que tanto já sangrou, hoje se sente bem pra te repousar de uma forma bonita, talvez isso seja o amor querendo voltar, talvez seja o tempo me oferecendo uma segunda chance. Sinto-me novamente em paz, tenho comigo em retorno as lembranças de dias e sorrisos ensolarados, tenho comigo de novo o amor, e é por isso que eu ainda tento te encontrar, é por isso que ainda desejo passar o café enquanto você de fala da sua vida, quero te mostrar quantos livros novos eu comprei e quantos textos e poemas piegas escrevi pensando em ti. Estico o pescoço pra te ver mas temo que essas janelas desse prédio não sejam altas o suficiente, então te procuro pelas esquinas dessa cidade caótica, nas praças com chafarizes bonitos, pelas calçadas esburacadas, e se por acaso, num dia ou numa tarde qualquer, você ouvir chamarem teu nome, olhe pra trás. Olhe pra trás e me recomece, meu amor.

Despedida







Não quero mais cobrar do tempo as respostas que atirei ao ar.

Não quero mais olhar pra frente e duvidar do quanto percorri.

Não quero mais sentir frio sempre que desnudar minha pele.

Não quero mais escutar os berros daquilo que jamais caminhou ao meu lado.

Não quero mais sentir a brisa afiada das palavras ditas sem real intenção.

Não quero mais encontrar fragmentos de mim em histórias findas que ainda me visitam.

Não quero mais mergulhar num sentimento e ter que gritar ajuda pra não me afogar.

Não quero mais ter que fechar os olhos pra me esconder de crueis realidades.

Não quero mais pôr a mesa do café e ter apenas o passado como companhia.

Não quero mais murrar minha cabeça numa parede de medos pontiagudos. 


Não quero mais ser suor e sangue em batalhas camufladas pela mentira.

Não quero mais que as minhas lágrimas percorram todo o meu corpo antes de escorrer pelos olhos.

Não quero mais despertar de madrugada com o choro dos meus lamentos implorando peito.

Não quero mais descobrir respostas somente quando a solidão me apertar o pescoço.

Não quero mais me reconhecer apenas acenando ao longe. .

Desculpe, essa foi minha última partida. .

Aguardo por ti no saguão de entrada.

Alice, me abraça por enquanto




Alice, te peço que me abrace como se eu fosse um velho amor. Reconheça esse meu coração aberto. Alice, você que é tão acostumada a ser casa e a retribuir olhares sinceros, enxergue-me em teu peito. Tenho os olhos ainda assustados, ainda procuro pela sombra, por abrigo, Alice eu admito que ainda me assusto, meu coração recém-acostumado a ser novamente dono de si ainda sente os resquícios da solidão de outrora, o fascínio de se redescobrir ainda não me fez esquecer as incertezas, será, Alice, que eu serei o amor pra ti? Será que chamarei seus olhos negros, seus lábios grossos e toda essa tua calma de minha paz? Será, Alice? Será que as águas mansas que procuro dentro do meu peito também existem dentro de você? São tantas incertezas, Alice, são tantos medos mas também são tantas expectativas, tantos sentimentos bonitos depositados dentro de nós, me abraça, Alice, me abraça por enquanto, vamos nos construir dentro do outro, até descobrirmos que esse abraço pode ser eterno. .

Pra onde vai o coração?





Eu fecho os olhos mas a alma grita, cubro-me de realidade e ainda sinto frio, olho para o horizonte mas avisto apenas escuridão. Tenho repetido diariamente que o tempo irá passar, que daqui a uns meses ou semanas estarei rindo disso tudo, mas acontece que o tempo está me cobrando um preço alto demais pra te levar embora, um preço que não posso pagar, e assim permaneço sustentando sua presença. O seu luto, eu sei, foi quase imperceptível, talvez essa seja a grande covardia do amor, desequilibrar as reações aqui de dentro, inflar o peito de um enquanto o outro se alimenta de migalhas, meus últimos dias resumem-se a tempestades, há um diluvio dentro de mim, um diluvio que insiste em me submergir, reviro sentimentos e recordo de quando ainda éramos felizes, de quando ainda éramos apenas um, eu sei que essas memórias de nada me servem além de fazer sofrer, mas é difícil não pensar onde eu tenha falhado pra que chegássemos a esse ponto, onde será que eu falhei?, minha cabeça dói, meu coração por vezes foge de meu peito por não enxergar mais abrigo, pra onde vão os corações que não suportam mais o amargo de um peito ferido? É estranho alimentar um sentimento tendo a certeza de não haver reciprocidade, é tudo muito embaçado e confuso, sabe lá Deus por que não me permito viver essa liberdade, não sei mais pra onde olhar, pra onde correr, pra onde sentir, procuro em meu interior a saída, mas na verdade eu gostaria apenas que você tivesse sido aquele meu poema de amor, onde o simples ato de rasgar ou tacar fogo te eliminasse de uma só vez de dentro de mim.

Eu queria que meu peito me blindasse







Eu só queria não precisar te olhar por essas esquinas, nem quando estou com a cabeça no travesseiro e com a luz apagada às duas da manhã, não é pedir muito ter a paz de olhar pra frente e enxergar apenas a liberdade caminhando ao meu lado, eu sei que todo esse turbilhão de sentimentos parece explodir sobre a minha cabeça, mas eu preciso que você não frequente mais meus pensamentos nem minhas noites mal dormidas, eu não quero mais ter que sair correndo pro banheiro no meio do expediente ou da aula pra secar as lágrimas, não quero mais ser alvo de risinhos ou comentários que apenas me enfraquecem, não sei de onde mas essa tal força que muitos falam por ai precisa me surgir, os dias após dias não podem continuar sendo pra mim uma via crucis, eu sei o tamanho do sol que está por trás dessa cortina e dessa escuridão, eu sei que o mundo la fora é suficientemente grande pra me esmagar ou me reerguer, não é fácil mas algo aqui dentro me manda lutar pela segunda opção, tudo pode ser uma nova forma de renascimento, olhando para o céu vejo que a fórmula magica não despencará na minha frente, talvez essa fórmula mágica nem exista, ou então está bem diante de mim, composta de amanhaceres e entardeceres, que o tempo seja meu amuleto, meu mantra, que toda essa claridade dos dias bonitos de verão voltem a me fazer sentido, mas por hoje eu só queria que meu peito me blindasse todas as vezes que você insiste em me surgir.

Estes são os meus últimos dias dentro de ti






Estes são meus últimos dias dentro de ti, os últimos amanheceres sob seus olhos castanhos, o fim de todos os sorrisos trocados, o término dos olhares que tantos infinitos prometeram, desculpe se ao falar assim rasgo sua alma, mas a verdade é que meu peito anda saturado de tanto ter que encenar a felicidade, eu gostaria que tivéssemos sido um do outro não só no corpo mas também em espírito, talvez a culpa não seja sua, talvez procurar culpados seja demonizar o que de fato foi vivido, sinto que por algum momento fomos um do outro de maneira plena, e que passados esses dias eu tenha a serenidade de levar comigo apenas o que de bom ficou.

A maturidade desse meu peito calejado me diz que relacionamentos necessitam transparência, precisam ser límpidos, carecem de potabilidade, afinal um precisa beber do outro, e quando nos vemos perdidos nesse mundo que criamos, chegamos à conclusão de que cada um deve seguir o seu caminho, é preciso entender que os dias de amanhã nos trarão novos dias, que se entregar por completo  a alguém é dadivoso mas saber a hora de dizer adeus pode significar a liberdade, não aquela falsa liberdade, e sim a cristalina e descortinada sensação de que o mundo nos pertence e por mais que as dores nos tomem de moradia, os novos amanheceres tratarão de nos cicatrizar.

Querer conduzir à força uma relação onde delicadeza e adoração não são pilares, acredite, é de uma insensatez sem limites, por isso estes são os meus últimos dias dentro de ti, por isso nossos caminhos seguirão distintos, meu peito dói num misto de emoções, num contraditório entre o certo e o que machuca, talvez essa seja a chaga daqueles que não temem procurar o verdadeiro amor, talvez o certo seja entregar o amanhã no colo do tempo, esse deus que mais cedo ou mais tarde sempre surgirá, ora nos abrindo caminho, ora nos chamando de volta, e acho que dessa vez eu consegui reconhecer os seus sinais.

Te transformo em tempo, me transforme também. Sejamos o que realmente vivemos. Fique bem.
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